Como ditaduras transformaram a América do Sul em campo de caçada humana DJALBA (01) Há cinquenta anos, em 25 de novembro de 1975, chefes de serviços secretos de ditaduras sul-americanas se reúnem em Santiago, no Chile. É aniversário do ditador chileno Augusto Pinochet, e os participantes dessa reunião macabra dão-lhe um presente sinistro, bem ao gosto dele. Daquela mesa nasce uma sombra. Um pacto clandestino. Uma ideia brutal: a perseguição a opositores políticos não mais respeita as fronteiras nacionais. É a institucionalização do terror transnacional. SAMARA (02): Assim surge a Operação Condor, a rede de repressão transnacional que caça, sequestra, tortura e assassina centenas de pessoas em seis países. E hoje, meio século depois, nós voltamos a essa história — que ainda pulsa, ainda dói, ainda explica muito do presente. DJALBA (03): Você está em Relatos - A Estação da História. SAMARA (04): Seja bem-vindo! DJALBA LIMA (05): Samara, é importante deixar claro: Condor não surgiu do nada. Antes de 1975, Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai já trocavam listas, fotos, rotinas de militantes. A doutrina de “Segurança Nacional” — aquela ideia do “inimigo interno” — foi o cimento ideológico. SAMARA (06): E aí entra um ponto delicado: o Brasil foi pioneiro. SNI, CIEx, DOI-CODI… Em pleno governo Geisel, a ditadura brasileira já era referência para os vizinhos em vigilância e repressão. DJALBA (07): É aquela história que muita gente não gosta de ouvir: quando Condor nasce, o Brasil já está no voo. SAMARA (08): Vamos aos detalhes daquela reunião sinistra: entre os dias 25 e 28 de novembro de 1975, representantes das ditaduras reuniram-se na capital chilena sob comando da DINA, a polícia secreta de Pinochet. DJALBA (09): Ali eles formalizam três pilares: troca de dados, operações conjuntas e equipes especiais para eliminar opositores. SAMARA (10): E propõem um nome — “Condor”. Um pássaro que voa longe, que atravessa cordilheiras. Era uma metáfora conveniente. DJALBA (11): É uma metáfora macabra, né, Samara? Porque a repressão, a partir de então, passa a voar sem fronteiras. Criou-se uma espécie de INTERPOL da repressão, voltada a localizar, capturar e eliminar dissidentes. SAMARA (12): Não havia mais limite à ação repressiva das ditaduras sul-americanas. As fronteiras foram abolidas. Dissidente chileno que se refugiou em outro país integrante do pacto Condor, como o general Carlos Prats, ex-comandante do Exército, foi assassinado junto de sua esposa, Sofía Cuthbert, em Buenos Aires, em 1974. DJALBA (13): Os dissidentes chilenos não estavam livres da ação ilegal nem mesmo em outros países não integrantes do pacto sinistro. Em Washington, Orlando Letelier, ex-chanceler de Allende, foi morto por um agente da Dina que colocou uma bomba potente em seu carro, em 1976. SAMARA (14): Exatamente, a ação da ditadura chilena não conhecia limites. Um ano antes desse episódio, ocorreu uma tentativa de assassinato do democrata-cristão Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Chile e um dos mais respeitados opositores de Pinochet. Leighton, então exilado, foi alvejado junto com sua esposa, Anita Fresno, em um ataque armado em 6 de outubro de 1975, em Roma, Itália. Ambos ficaram gravemente feridos. SAMARA (16): O fato é que milhares de militantes de base, estudantes, sindicalistas e familiares foram sequestrados e desaparecidos por ação da Operação Condor. O National Security Archive fala em ao menos 805 vítimas dessa repressão transnacional. DJALBA (17): Vamos ao ponto sensível: a participação brasileira. Por décadas, sustentou-se que o Brasil “não participou” da Condor. Uma narrativa confortável — e falsa. SAMARA (18): Arquivos divulgados nos últimos anos mostram que: o Brasil aderiu formalmente em 1976; participou de reuniões de coordenação; forneceu inteligência, tecnologia e logística; usou diplomatas para monitorar exilados; e integrou operações de captura. DJALBA (19): Um caso ocorrido no Brasil, no fim da década de 1970, deixou claro o modus operandi da Condor: o sequestro dos ativistas uruguaios Lilián Celiberti e Universindo Díaz, juntamente com os dois filhos dela (de 3 e 8 anos na época), ocorrido em Porto Alegre, em 12 de novembro de 1978. Foi uma operação conjunta entre militares do Uruguai e agentes do DOPS do Rio Grande do Sul, no âmbito da Condor. As vítimas eram militantes do Partido por la Victoria del Pueblo e haviam se exilado no Brasil, tentando viver na legalidade. SAMARA (20): E ainda há os casos de sete pessoas com cidadania brasileira desaparecidos após operações conjuntas na Argentina. Casos que o Itamaraty conhecia — e ocultou. Você pode dar mais detalhes sobre esse episódio? DJALBA (21): Sim, poucos brasileiros conhecem essa história — e ela é crucial para compreender o papel do país na Condor. Entre 1977 e 1978, sete militantes do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), brasileiros natos ou uruguaios com nacionalidade brasileira, foram presos clandestinamente na Argentina. Seu destino: o mesmo de centenas de outros opositores do Cone Sul — desaparecimento forçado. Esses nomes foram descobertos anos depois. A embaixada do Brasil em Buenos Aires registrou internamente informações sobre os desaparecimentos — mas não alertou as famílias, nem denunciou às instâncias internacionais. O PVP era uma organização de esquerda uruguaia que enfrentava duríssima repressão. Como muitos exilados, parte do grupo buscou refúgio na Argentina — e acabou capturado pela maquinaria da Condor. SAMARA (24): Agora, vamos falar dos voos da morte, a face mais extrema da Operação Condor. DJALBA (25): Embora tenham se tornado tristemente famosos pela atuação da Força Aérea e da Marinha argentinas, os voos da morte não eram um fenômeno isolado. Eles se encaixavam perfeitamente na filosofia operacional da Operação Condor: matar o inimigo e eliminar qualquer vestígio dele. SAMARA (26): Como era a cadeia de eventos dos voos da morte? DJALBA (27): Prisão ilegal (muitas vezes em outro país, via Operação Cóndor). Transferência clandestina para centros de tortura na Argentina. Interrogatórios extensos e torturas. Despacho aéreo: vítimas eram dopadas, despidas e lançadas ao Rio da Prata ou ao Atlântico, vivas, durante voos militares. A Argentina transformou o sistema em rotina. Estima-se que centenas, talvez milhares, tenham sido mortos dessa forma. SAMARA (28): João Goulart, o Jango, presidente brasileiro deposto pelo golpe de 1964, parece ter sido um alvo silencioso da Operação Condor. O que há sobre ele? DJALBA (29): Sim, Jango também estava no radar Condor – monitorado por Brasil, Argentina e Uruguai. Um arquivo do CIEx sobre ele referente ao período de 1975 a 1976 afirma que sua “atividade política permanece potencialmente desestabilizadora”. É oportuno o esclarecimento: a sigla CIEx refere-se ao Centro de Informações do Exterior, um órgão de inteligência e repressão criado pelo governo brasileiro durante a ditadura militar. Tinha como finalidade vigiar, monitorar e seguir os exilados políticos brasileiros que viviam no exterior. Atuava em estreita colaboração com ditaduras do Cone Sul, no âmbito da Operação Condor. SAMARA (30): Jango morreu em decorrência de um infarto enquanto estava exilado na Argentina, em 6 de dezembro de 1976. Contudo, há fortes suspeitas de que a morte tenha sido causada por envenenamento como parte da Operação Condor, e essa hipótese levou à exumação de seu corpo em 2013 para investigação. Não foi possível determinar a causa da morte devido à decomposição e a outros fatores, mas a investigação prossegue. DJALBA (31): Outro ponto crucial: os Estado Unidos sabiam de tudo. Um telegrama do Departamento de Estado norte-americano, datado de 1976, afirma: “Brasil, Paraguai e Bolívia demonstram interesse crescente em integrar o mecanismo Condor.” DJALBA (32): Nesse ano, o Brasil passou a integrar, formalmente, a operação sinistra. Relatórios da CIA detalham torturas e desaparecimentos — em tempo real. Houve apoio, treinamento, tecnologia e silêncio diplomático diante da atrocidades da Operação Condor. Os Estados Unidos só recuaram quando Letelier foi assassinado em Washington e o escândalo estourou. Eis o que diz um relatório da CIA sobre o caso Letelier: “Informações sugerem responsabilidade da DINA em operação letal em território dos Estados Unidos.” SAMARA (33): Argentina, Chile e Uruguai julgaram militares da Condor. E no Brasil? Lei de Anistia, que perdoou os crimes da ditadura. DJALBA (34): A Comissão da Verdade “Rubens Paiva” recomendou que o Brasil pedisse desculpas ao Cone Sul. Até hoje, não aconteceu absolutamente nada disso. SAMARA (35): E precisamos falar sem rodeios: A impunidade brasileira é parte da herança Condor. DJALBA (36): Obrigado por nos acompanhar. Este foi Relatos A Estação da História. Até o próximo episódio. SAMARA (37): Se tiver gostado, compartilhe com os amigos. Se quiser comentar, entre em relatos.blog.br e deixe sua opinião. Texto de Djalba Lima. DJALBA: Efeitos sonoros: freeSFX.co.br