29 de outubro de 1945 - oitenta anos atrás! A ditadura do Estado Novo chega ao fim. E o Brasil assiste à queda de Getúlio Vargas — mas não como nas deposições épicas dos filmes, nas barricadas, ou nos levantes de massas espontâneos. Aqui, o fim acontece em silêncio. Nos subterrâneos. Ou nos corredores fechados do poder. Hoje vamos entender por que essa queda não foi apenas o fim de Vargas — mas o início de um padrão que regeria a política brasileira ao longo do século vinte. Vargas governava o Brasil havia 15 anos. Era o Estado Novo, um regime autoritário, centralizador, que suspendeu eleições, fechou o Congresso, censurou a imprensa e perseguiu adversários. Mas o mundo mudou durante a Segunda Guerra Mundial. O Brasil estava mandando soldados para lutar contra o nazi-fascismo na Europa… ao lado das grandes democracias. E internamente, aqui dentro, vivíamos sob uma ditadura. Essa contradição explodiu. O cenário não era marcado apenas pela oposição de intelectuais, estudantes, políticos liberais ou militares insatisfeitos. Havia nesse cenário também o outro lado, o reverso da moeda: o Queremismo! Era um movimento híbrido — que vinha tanto das bases populares, sindicatos urbanos, quanto de setores mobilizados por dentro do próprio Estado Novo — e cujo slogan era direto: “Queremos Getúlio!” Era um movimento pela continuidade da ditadura, porque Getúlio era visto por amplas camadas como o "pai dos pobres". E tem um ponto que explica por que Getúlio tinha essa força popular real. Não era só propaganda. Não era apenas mito construído. Ele se tornou, para milhões, o “pai dos pobres” porque foi no governo dele que os direitos trabalhistas foram consolidados. Em 1º de maio de 1943, Vargas assina a CLT — a Consolidação das Leis do Trabalho — reunindo direitos como jornada de 8 horas, férias, descanso remunerado, proteção do trabalho do menor e da mulher. Muitos desses direitos já vinham sendo reivindicados nas décadas anteriores… mas foi Vargas quem transformou tudo isso em lei. Para o trabalhador urbano brasileiro, aquilo teve impacto imediato e concreto. E essa memória social não se desfaz fácil. Ou seja: Vargas não caiu sozinho. Ele tinha rua. Ele tinha base. Ele tinha massas. E isso torna o episódio ainda mais singular. Mas, mesmo com apoio popular, o desgaste era insustentável. A cúpula militar, setores civis da elite política e econômica decidiram que o ciclo Vargas tinha terminado. E então chega a cena mais tensa desse capítulo: o aviso final. O general Cordeiro de Farias é encarregado de ir pessoalmente ao Palácio do Catete. Ele leva junto o ministro da Justiça, Agamenon Magalhães. Chegam ao Catete. Entram. Vargas está acompanhado do seu irmão, o coronel Benjamin Vargas. E então, Cordeiro de Farias dá o recado final, como relataria mais tarde no livro “História Vivida”: “Presidente, o senhor precisa enviar uma pessoa ao Ministério da Guerra para dizer para onde deseja ir. Não há necessidade de que saia amanhã, nem depois de amanhã. Mas a guarda do Palácio já não é a mesma. E as pessoas que estão aqui, ao saírem, não poderão mais voltar.” Um Getúlio "frio" pergunta: 19:26 02/11/2025 “Então, é uma deposição sem sangue?” E Cordeiro responde: “Sem sangue. A não ser que seus partidários resolvam defendê-lo. Nesse caso, vamos lutar contra eles. Mas a sua pessoa é intangível.” Sem alternativa, Getúlio aceita. O presidente do Supremo Tribunal Federal assume interinamente. E o general Eurico Gaspar Dutra seria eleito depois, em 1946. Mas a história não fecha aqui. Porque Getúlio volta. Ele retorna pelo voto direto em 1951. E enfrenta um ambiente político ainda mais inflamado, dividido, ideológico, hostil e cheio de pressões — internas, externas, empresariais, militares, midiáticas. O segundo governo de Vargas caminha sobre carvão em brasa. Até que em 24 de agosto de 1954 — no auge da crise — Vargas se mata no Catete. O suicídio vira ato político. E muitos historiadores defendem que esse gesto retardou o golpe militar em cerca de 10 anos. E há uma evidência histórica que reforça essa tese: a Novembrada de 1955. Foi quando o marechal Henrique Teixeira Lott agiu para abortar uma nova ruptura institucional com objetivo de impedir a posse de Juscelino Kubitschek — eleito democraticamente em 3 de outubro de 1955. Isso foi chamado de "contragolpe preventivo"! Ou seja: O golpe que tentaram fazer em 1954… só se materializaria em 1964.